XX - XY

quarta-feira, outubro 20, 2004

Only One


Seguiu o trilho desenhado a rosas e óleo e à medida que entrava na floresta tentava futilmente reter pormenores que o ajudassem a regressar. Olhava para trás fugazmente e percebia que estava longe, muito longe.
Estava sozinho e escurecia rapidamente. A lua não penetra as copas frondosas da Floresta de Gratyianet.
Demasiado escuro.
-É difícil não sentir medo nestas alturas – pensou assustado.
Apertou junto ao peito o saco com 500 yaki.
-Não chegarei lá desta maneira. Tenho que descansar. Nesta floresta maldita e amaldiçoada onde pode um homem descansar?
Estranhos sons quase animais, preenchiam a floresta. Ecoavam por toda a parte, devorando o silêncio à medida que seguiam disparadas em todas as direcções. Tudo parece crescer, rasgar o imaginário e deixá-lo exposto num bailado dançado no breu.
Atento a cada som, a cada movimento, quase conseguia distinguir as manchas das folhas que voavam, do negro do chão.
Uma estranha brisa corria nesta parte da floresta.
-Alí em cima, naquela àrvore... Tem espaço suficiente para me deitar. Tenho que subir.
Habilmente amarrou o saco e a manta nas costas e subiu os ramos mais baixos...
A brisa dera lugar a um vento forte e contínuo e a bizarra música que os ramos e folhas fazem ao serem cortadas pelo vento ensurdece tudo à sua volta.
Droylika era um sábio que vivia numa aldeia muito longe. Muito longe do fim do mundo.
A Floresta de Gratyianet ficava no fim do mundo. Era o fim do mundo.
O único lugar em todo o reino onde ele os podia encontrar. Os donos do mundo. Aqueles que tudo tinham.
Ia lá fazer um pagamento. Só ele o podia fazer.
Os anciãos haviam permitido que Droylika abandonasse o reino porque sabiam que mais ninguém o podia fazer. E tinha que ser feito.
Juntaram todos os yaki que conseguiram. Os yaki eram a representação máxima de fortuna no reino. Aquele que chegasse em vida a possuir um yaki, era provavelmente frequentador da Couylakit – O grupo de anciões com mais terras no reino. Eram normalmente donos de várias casas de ferreiros, tanoeiros e padeiros.
Contavam-se 3 membros quando Droylika começou a sua jornada.
A noite acalmou à medida que o corpo cansado pedia clemência.

A manhã havia chegado e com ela alguns raios de sol conseguiam penetrar as camadas de folhas que preenchiam o céu de Gratyianet .
-Não sabia que estava tão perto.
Por baixo da àrvore um grande poço negro erguia-se triunfante por entre o chão húmido.
Desceu mais rápido do que julgava ser possível e ajoelhou-se ao lado do poço.
Juntou os 500 yaki e distribuiu-os pela borda do poço, entoando cânticos Qeloni. Antigos cânticos celebrando a vida e a natureza eram passados de pais para filhos desde a formação do Olnhi . O mundo.
Ajoelhou-se novamente e murmurou o seu pedido.
E pediu que desculpassem os netos dos seus netos e os netos destes, até ao fim da sua linhagem. E pediu desculpa pelo esquecimento.
-Como poderão eles se esquecer?
E pediu desculpa por todo o mal que farão ao Olnhi.
Pediu desculpa pela brutal maneira que adoeceriam toda a Amyilk – Natureza.
E pediu clemência, porque mesmo no fim, eles não o conseguiriam perceber e acabariam por destruir tudo e todos. Lembrava-se claramente como de ontem se tratasse. E as lágrimas escorregaram pela rugosa face humedecendo os traços velhos, vividos de um homem que sabia. Que se lembrava de um sonho tido há muitos anos atrás, quando era ainda um pobre rapaz a dormir na margem de um lago...




OnlyOne
posted by Mike at 10/20/2004 08:45:00 da tarde

2 Comments:

Adorei esta viagem pelo imaginário!
Ainda por cima muito bem escrito.
Um abraço

10:31 da tarde  

Fizeste-me viajar, quase até ao fim do mundo...
Um *

10:08 da manhã  

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